A “vida de castelo” no dia-a-dia

Cheverny

A finalidade dos castelos mudou com o tempo.

O objetivo primeiro foi essencialmente militar: defender a população local da invasão de povos estrangeiros, bárbaros ou muçulmanos.

O triunfo do cristianismo trouxe a paz para a Europa, perturbada é verdade pela ofensiva protestante e, mais tarde, pelo ódio anti-aristocrático da Revolução Francesa

Mas, nos últimos séculos, o castelo passou a ser uma condensação do passado de uma família nobre.

Dentro de seus austeros mas já decorados muros, essas famílias conceberam um sonho.

Alguém poderia chamar esse sonho de ‘conto de fadas’. E, de fato, não há ‘conto de fadas’ sem castelo.

Esse sonho gestado por uma estirpe a través dos séculos foi compartilhado pelas populações das redondezas.

Saint-Fargeau, Borgonha, França

É um sonho partilhado onde o nobre castelão opera aquilo que S.S. Bento XV chamou com luminosa precisão de “sacerdócio da nobreza”.

Como vive o nobre o dia-a-dia no grande número de castelos ainda habitados, mantidos e defendidos pelos seus legítimos proprietários?

Provavelmente, deve ser de modos extremamente diversos segundo as famílias, regiões e países.

O laureado escritor Jean d’Ormesson, filho do marquês de Ormesson,  membro da Académie Française, ex-diretor do diário “Le Figaro”, passou boa parte de sua infância no castelo de Saint-Fargeau que pertencia à família de sua mãe.

Salão de Saint-Fargeau, Borgonha, França

O nobre literato verteu no papel pequenas mas deliciosas cenas que ajudam a compreender como era a vie de château no castelo de sua família na Borgonha, França.

O relojoeiro de Roussette

Todos os castelos do mundo, na Escócia ou nos Cárpatos, na Boêmia ou no vale do Loire se orgulham de ter 365 quartos.

Nosso château tinha também 365 quartos. Mais ou menos. Nunca os contáramos.

Ele tinha um relógio de salão (pendule) em cada quarto, oito nos salões, dois no bilhar, seis nas bibliotecas. Não menciono os relógios de parede.

M. Machavoine vinha todos os sábados de Roussette para dar corda nos relógios.

Por que sábado? Para permitir aos relógios de soar, todos juntos, no domingo ao meio-dia.

Aos domingos, a dois minutos para o meio-dia, meu avô, recém chegado da Missa solene, punha-se num dos salões, onde nosso capelão ‒ convidado habitual dos domingos – não tardaria a chegar, portando sua velha batina, já meio esverdeada. Vinha atraído pelos sonhos açucarados, hélas, só servidos à noite, mas mais imediatamente pelo frango à la creme do almoço dominical.

Para provar que nada tinha de maníaco meu avô, a cada domingo, sentava-se sempre numa poltrona diferente, mudando até de salão.

Vaux-le-Vicomte

Ele tirava da algibeira o relógio de ouro que seu bisavô dera a seu avô no dia de seu aniversário, ao fazer vinte anos. E esperava.

Ao meio-dia todos os relógios do château se punham a bater ao mesmo tempo. A meio-dia e um minuto meu avô recolocava no bolso o relógio de seu avô e retornava à leitura de ‘Action Française’ ou às memórias do duque de Saint-Simon ou ainda ao ‘Congresso de Viena’, de M. de Chateaubriand.

Às vezes, passados três ou quatro minutos de meio-dia meu avô era arrancado de sua leitura pelo bater atrasado de um dos relógios. Então, por meio de um valet, ele chamava o intendente do château afim de que ele assinalasse a irregularidade a M. Machavoine.

A chave de cada relógio era depositada entre ninfas ou figuras rococós, entre colunas de pórfiro ou pendiam simplesmente. Mas a idéia de nós mesmos acertarmos um dos relógios nunca teria ocorrido a ninguém.

Em conseqüência, penso eu, de uma distração de M. Machavoine, aconteceu-me de ver parados relógios que consultávamos diariamente. Era preciso aguardar a próxima vinda de M. Machavoine para recolocá-lo em funcionamento.

Acontece que vivíamos numa ordem e numa hierarquia que se tratava de manter até os mínimos detalhes e onde o princípio “um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar” aplicava-se também aos homens – talvez, sobretudo aos homens.

O papel de M. Machavoine neste vale de lágrimas onde Deus nos mantinha era o de dar corda em relógios. O nosso era de esperá-lo e admirá-lo. E este era um prazer do qual eu não me cansava nunca.

(Fonte: Jean d’Ormesson, “Au plaisir de Dieu”, Ed. Gallimard, 1980, 626 páginas.)

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