Imponderáveis da “vida de castelo”

Relógio em Vaux-le-Vicomte
Continuação do post anterior

Prosseguimos com a narração de Jean d’Ormesson, filho do marquês, então criança, no castelo de Saint-Fargeau, Borgonha:

A vinda de M. Machavoine [o relojoeiro da cidadinha vizinha] me lançava em delícias inefáveis. Ele falava pouco. Pequeno, curvado, fazia pouco barulho, executando sua função com gestos precisos e seguros, próprios a antiquários ou cirurgiões.

Ele se esgueirava de sala em sala, sempre vestido de negro, cumprimentava rapidamente, concentrava-se em um dos relógios como se fosse um ser vivo, acariciava-o rapidamente, desempoeirando-o com um pequeno espanador, ousava às vezes dar retoques no verniz ou colava alguma figura afrouxada, abria o paciente para lançar um olhar de águia em suas recônditas entranhas e se punha a dar corda com uma firmeza e um tacto excepcionais.

A música desses ritos encantados causava-me uma felicidade que psicanalistas ávidos e subtis de nossos dias tomariam como revelações.

Saint-Fargeau

A calma, a regularidade, a simplicidade, o compassado quase silencioso de seus gestos lançavam-me fora do tempo.

No mais profundo do refúgio constituído pelo verão, pelo château, pelo jardim, os gestos de M. Machavoine abria um outro, ainda mais profundo e mais secreto.

Em razão de um estranho paradoxo seus relógios conseguiam parar um tempo permanecido imóvel desde sempre. Eu me preparava para espiar, todos os sábados, por volta das dez horas, o mágico dos relógios.

No castelo de Breteuil,
até o gato-de-botas ostenta seu relógio

Eu procurava ficar em meu quarto mergulhado na penumbra. Fingia ler um livro. Esperava.

Ouvia os passos do pequeno homem encurvado ressoando nos corredores do château e o som delicioso da remoção dos cristais, das batidas nos mostradores, o girar do mecanismo da corda, as coluninhas re-aparafusadas ou as liras repostas em seus lugares.

Parecia-me ouvir o roçar do espanador e o trajeto dos ponteiros repostos em seus legítimos lugares, sem brutalidade nem fraqueza.

Eu distinguia o toque dos relógios feitos de madeiras embutidas (marqueterie) dos relógios de bronze dourado à la Luís XV; o som dos relógios rococós do salão das chinoiseries dos relógios do quarto azul, o toque do relógio de marfim ou do vaso antigo se distinguia perfeitamente do relógio do quarto ao lado do meu.

Finalmente a porta se abria. M.Machavoine entrava. Eu ficava sem fôlego.

Não mexia afim de melhor gozar a qualidade tão pura dos sons e dos gestos tirados por M. Machavoine do silêncio e da imobilidade. A minúscula exaltação durava alguns instantes.

Eu tinha desregulado os ponteiros para ter o prazer de ouvir soar as horas e as meias horas sob os dedos de M. Machavoine enquanto ele restabelecia, neste seu modesto domínio, a ordem desejada por Deus, por meu avô e por ele.

Breteuil: bonecos com relógio

Ele dava corda, fechava o cristal, dava um último toque com seu espanador ou com um pano de lã, leve como a seda. Estava encerrado. Ele saía.

Às vezes tinha a audácia de segui-lo, melhor ainda, de precedê-lo. M. Machavoine me encontrava então sucessivamente, instalado numa poltrona, mergulhado em minha leitura, visivelmente surpreso de sua chegada inesperada, no quarto da Marquesa ou no quarto dos cravos.

Também ele, penso eu, deveria ter alguma surpresa. Mas nada deixava transparecer.

Dava corda no relógio, cumprimentava-me, saía e me encontrava cinco minutos mais tarde, pela quarta vez, no quarto da torre. Cumprimentava-me novamente e dava corda no relógio.

M. Machavoine era um sábio. Eu o apreciava tanto, sem nunca ter-lhe dito uma palavra.

Eu o apreciava em razão dos êxtases que me causava, surgidos do hábito, do silêncio e do tempo.

(Fonte: Jean d’Ormesson, “Au plaisir de Dieu”, Ed. Gallimard, 1980, 626 páginas.)

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